• Victoria Ferreira

Racismo no movimento feminista

O BBB20 denunciou de forma evidente o racismo no movimento feminista, como mulheres que lutam por liberdade e igualdade podem reforçar discursos que vão na contramão de suas reivindicações?


Se quiser OUVIR essa conversa de forma mais íntima, visite o episódio 5 do meu podcast.


Para a Gabi Miranda, publicitária e comunicadora popular, a principal razão para esse problema é justamente a falta de embasamento teórico desse movimento feminista que explodiu no Brasil há pouquíssimo tempo e através das redes sociais. Só depois do boom dos discursos de girl power e autocuidado é que aquelas que já se diziam feministas se atentaram para a complexidade do problema, foi aí que o discurso se tornou insustentável.


"Todo mundo estava falando sobre empoderamento de mulheres, mas que mulheres?" por Gabi Miranda

Para além disso é importante resgatar, como bem nos lembra Bárbara, que o movimento feminista é historicamente um movimento europeu. Recordar sobre sua origem é reconhecer que importamos sem questionar uma visão que tinha como centralidade uma experiência branca e imperialista.


Universalização da mulher branca


Na busca por respostas simples para um problema complexo, buscou-se uma narrativa única no lugar de entender e aplicar a filosofia à uma diversidade de vivências - foi justamente nesse processo que passamos a entender, mesmo sem dizer isso, que feminismo era um movimento de mulheres brancas que se contrapõe a vivência de homens brancos.


Esquecemos que o gênero e portanto o ideal de feminilidade é um só, mas que ele atinge diferentes mulheres de formas completamente diferentes.


Quando falamos, por exemplo, que a sociedade enxerga mulheres como o sexo frágil, não estamos abarcando mulheres pretas que até hoje são operadas sem anestesia, já que o racismo está presente na medicina que ainda perpetua a ideia de que mulheres pretas são mais tolerante à dor.


Tomar uma única vivência como norma é excluir tudo aquilo que não se encaixa e não se aproxima dela, deixando à margem mulheres que não cabem nos ideais racistas de gênero.


A história do movimento é marcada por opressões de raça.


Angela Davis apresenta esse cenário de forma perfeita em seu livro mais famoso "Mulheres, raça e classe" quando escancara o racismo, em especial no movimento sufragista que se aliou a grupos supremacistas brancas para obter o voto para mulheres brancas. Da mesma forma como Davis retrata o racismo do movimento, evidencia a relação intima entre racismo e machismo.


Para a Gabs Ferreira esse é um problema causado pela individualização do movimento, que nos leva a acreditar que mulheres em posição de poder são a solução para a opressão feminina. Mesmo que, em sua maioria, mulheres brancas tenham a mesma concepção de poder que homens brancos e o utilizem para hierarquizar e oprimir.


A supremacia masculina também é branca


A supremacia masculina também é branca, ou seja, nem todo homem é beneficiado por ela.


Isso não quer dizer que homens negros e/ou pobres estão isentos do machismo, já que também são responsáveis por violências de gênero. Mas é importante reconhecer que a dominação masculina instaurada pelo patriarcado não coloca todos em posição de poder, já que o patriarcado é racista.


O feminismo que estamos construindo reconhece que a violência e as opressões nascem de um mesmo lugar, de uma cultura ocidental dualista e violenta, e que a movimentação só vai causar mudanças profundas quando atacar o problema pela raiz.


Promover uma autocrítica ao movimento feminista não tem como objetivo invalidar o movimento, mas sim aprimorar a ação política para que as mudanças sejam efetivas e revolucionárias. É importante naturalizar a ideia de pessoas de dentro do movimento repensando a teoria e prática.


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feminismo e bem-estar por Victoria Ferreira

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