• Victoria Ferreira

O tabu do corpo feminino

Atualizado: Jul 22

Nossa sexualidade, em especial a do corpo fêmea, não é um simples fator biológico mas algo diretamente afetado pelos aspectos sociais e culturais que vivemos - tanto na visão que temos dela mas também na maneira como ela se comporta diante disso.


Os significados do corpo feminino


Ao longo da humanidade esse corpo teve diferentes significados, relacionado ao sagrado, como a representação humana do ciclo da natureza, mas também como símbolo do pecado, da sujeira e do incontrolável - especialmente em religiões eurocêntricas.


Esse fator quase mítico nasce com o não entendimento do corpo feminino, já que sua ciclicidade, a menstruação, a gravidez e o prazer desse corpo permanecem como mistérios por muito tempo.


Essa visão de corpo incontrolável é um caminho conveniente para a grande necessidade e importância em controlar nossa capacidade reprodutiva. Afinal de contas, são esses os corpos que funcionam como base da sociedade, produzindo mais ou menos seres humanos e consequentemente mão de obra.


Quando falamos sobre nossos corpos estamos falando também sobre política e sobre o controle que indústrias e governos exercem sobre eles.


O racismo e sexismo nos direitos reprodutivos


A primeira pílula anticoncepcional chega no mercado no início da década de 60, e em pouquíssimo tempo é disseminada de forma massiva. São diversos fatores que nos levaram até esse cenário, entre eles a reivindicação por liberdade sexual e direitos reprodutivos mas também a necessidade de implantar uma política eugenista.


Política eugenista é um conjunto de ações com objetivo de criar a "sociedade perfeita". Para os seguidores desse movimento a miséria, pobreza e violência eram hereditárias, portanto, para criar a sociedade perfeita pessoas ricas e brancas deveriam ter mais filhos do que as pobres e não-brancas.


A pílula anticoncepcional foi parte dessa política. O medicamento foi testado em mulheres pobres de Porto Rico, que além de viverem em situação social vulnerável não eram informadas sobre os riscos e efeitos colaterais do medicamento. O país, além de não ter muita regulamentação, desejava desacelerar o crescimento populacional.


Na mesma linha de pensamento o Brasil realiza, na década de 90, esterilização em massa de mulheres pobres e principalmente nordestinas, sem autorização ou de forma coercitiva. Prática defendida até hoje por alas conservadoras do governo, que acreditam que violentar o corpo de uma mulher preta e pobre é muito mais conveniente do que dar oportunidades, estabelecer políticas de afirmação, colocar educação sexual nas escolas e garantir direitos reprodutivos.


É conveniente que a decisão de quem e quando nasce seja deles e não nossa.


O controle de nossos corpos através da ciência


A ciência não é um saber neutro, é um saber que também é atingido pelo machismo e racismo.


Não fornecer conhecimento sobre nossos próprios corpos, e pior passar conceitos machistas em forma de conhecimento, é um projeto político de controle. Assim como a proibição do aborto, a medicalização e a esterilização em massa.


Não é atoa que fomos mortas como bruxas por ter conhecimento sobre nossos corpos e capacidade reprodutiva. Não é coincidência que os saberes medicinais e ginecológicos dessas mulheres tenham sido roubados e guardados, enquanto as primeiras faculdades de medicina para homens eram fundadas. Nos mataram para tirar o conhecimento de nossas mãos e dar para homens brancos.


Estamos falando da inquisição, mas também do processo de colonização que assassinou os saberes de nossos ancestrais.


A autonomia do saber


É importante movimentar reflexões e conhecimento que nos dê mais autonomia e controle sobre nossos corpos, sem esquecer de cobrar do governo o que nos é de direito. Conhecer o funcionamento do seu corpo, como ele se manifesta no seu cotidiano, como ele sente prazer e responde à plantas medicinais, por exemplo, é parte essencial desse processo de retomada do saber.


Para começar esse processo de autoconhecimento recomendo o ebook "Viva seu ciclo", criado pela autora do blog Lado Oculto da Lua e o Coletivo Idílio, que explica de forma extremamente didática nosso ciclo menstrual.


Para um debate mais íntimo sobre essa temática ouça o episódio 3 do meu podcast.


0 visualização

feminismo e bem-estar por Victoria Ferreira

entre em contato.

  • YouTube - Black Circle
  • Instagram - Black Circle
  • Pinterest - Black Circle