• Victoria Ferreira

O que é autocuidado?

A internet explodiu com conteúdos de autocuidado, em especial quando as coisas ficaram muito difíceis no âmbito político e a militância feminista exigiu de nós um tempo de cuidado, um tempo distante da linha de frente. Nos Estados Unidos a palavra autocuidado atingiu seu pico durante a eleição do Trump em 2016, no Brasil a palavra atingiu seu pico durante as eleições de 2018 e depois de seu resultado.


Sempre entendemos esse conceito como de muito importância, especialmente em um mundo que coloca mulheres como as principais responsáveis pelo cuidado do outro - seja nos serviços de cuidado, como educação e saúde, mas também no âmbito pessoal, como em relacionamentos e na maternagem.


Autocuidado também é subverter a ideia da mulher heroína, serviçal e sempre disponível para o outro.


O que é autocuidado?


A discussão nasce no seio da militância feminista, em 1988 por Audre Lorde, escritora, mulher negra, lésbica e feminista. Autocuidado se torna, nesse contexto, estratégia.

"Cuidar de mim mesma não é autoindulgência, é autopreservação, um ato de luta política." Audre Lorde em “A Burst of Light”

Autocuidado é o ato de olhar e cuidar de si mesma, estar atento às próprias necessidades para desenvolver hábitos que visam bem-estar e qualidade de vida.


Os pilares do autocuidado


Somos um compilado de coisas e nos olhar com carinho também é reconhecer nossas complexidades e ciclicidades, sem nos exigir respostas prontas e simples. Por isso ao pensar em colocar autocuidado em prática precisamos pensar também em alimentar cada um dos pilares que nos compõe.


Físico: Nesse caso estamos falando sobre tudo que envolve nosso corpo material. Praticar um exercício físico que seja prazeroso, dar a atenção necessária para a qualidade e quantidade de sono, não neglicenciar vida sexual, beber água, se alimentar corretamente, entre outras práticas.


Intelectual: O objetivo aqui é trabalhar seu crescimento pessoal e profissional, sua visão de si mesma e do mundo que vive. Tentar novas atividades, ler um bom livro sem pressa, fazer um curso que você quer há tempos, assistir bons filmes e palestras do TED Talks são ótimos exemplos.


Social: Somos seres sociais e o distanciamento social forçado pela pandemia veio para nos mostrar a força disso. Nos faz falta o toque físico, os abraços e beijos, as conversas jogadas em uma mesa de bar, os papos profundos e os supérfluos, as risadas e até as discussões acaloradas. Que a gente não se esqueça quão importante é cultivar relações saudáveis.


Emocional: É tudo que diz respeito à que e como sentimos, à tudo aquilo que é afeto. Quais são seus limites? Quais são suas faltas e excessos? Essa é a hora de alimentar essas perguntas e suprir essas necessidades, sem esquecer que falamos aqui da ponta do iceberg; todo o resto de nossas vidas afeta nosso emocional. Terapia, escrita, yoga, meditação, entre outras, são práticas de autocuidado emocional.


Autoconhecimento é essencial


Autoconhecimento é essencial porque só assim entendemos quais são nossas necessidades e onde é que excedemos nossos próprios limites. Sem isso não somos capazes de colocar o autocuidado em prática para a busca de uma vida consciente e de qualidade, sem isso permanecemos na superfície.


Saber o que você gosta, o que te faz mal, o que te faz bem, onde é que você se machuca ou se ama, é algo essencial para praticar o autocuidado de forma efetiva para além da noção supérflua que diz que autocuidado é apenas sobre aprimorar sua aparência.


Não é só sobre se satisfazer momentaneamente, mas se conhecer e nos oferecer o que precisamos - atos que trazem benefícios a médio ou longo prazo.


Ritual ou Hábito?


Para desmistificar autocuidado e a imagem que construimos dele, vamos dividir suas práticas em dois grandes grupos:


Os rituais, em que separamos um tempo do nosso dia para fazer atividades não usuais ou que nos tirem, mesmo que por pouco tempo, da rotina. São os hobbies, as pausas, as férias e os rituais mesmo.


E os habituais, que são práticas que já fazem parte do nosso cotidiano feitas de forma consciente. A maneira como tomamos banho, nos alimentamos ou nos relacionamos com quem mora com a gente - por exemplo: aprender a dizer não para as pessoas não é um ritual, mas com certeza é um ato de autocuidado.


A grande questão é que autocuidado pode ser as duas coisas, ou talvez a ideia de transformar hábitos em rituais. O que importa é que te sirva da melhor forma, ao em vez de excluir todas as vivências que não cabem na visão de autocuidado que te venderam.

Como mãe poder tomar banho sozinha pode ser sua prática de autocuidado, como uma jovem solteira a yoga ou uma aula de dança pode ser a sua, e vice-versa. Só você pode dizer o que cabe e o que te serve como cuidado!

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feminismo e bem-estar por Victoria Ferreira

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